| Pra
não ter que passar o resto dos meus dias
repetindo isso, leia até o fim se quiser
saber como fui na regata de sábado...
Bem que tentei correr a regatinha em Vila Velha
sábado, mas peguei um tufão de míseros
42 knots de pico, quando faltavam uns 2 km pra
chegar, segundo o anemômetro do Porto deTubarão.
E eu de minha preferida (e única) vela
de FW, a 9.8... parecia uma asa delta!!
Detalhe que só fui saber disso no outro
dia, pois a lancha da Capitania que me socorreu,
por incrível que pareça, não
tem anemômetro.
Foi lindo, saí da rampa do Iate de popa,
com um vento noroeste médio, totalmente
atípico; foi tão legal sair nessa
posição inédita que resolvi
até cronometrar o tempo que eu levaria
entre o ICES e Vila Velha, uma vez que eu teria
que ir de popa até lá no meio e
depois descer de través; o vento lá
fora, depois que venci a Ilha do Frade, tava ideal
pro meu gosto, uns 13, 14 knots, tava no limite
de ter que usar a 5ª alça.
No caminho encontrei Cassaro voltando, que desistiu
porque tinha hora pra chegar em casa (nunca vi
velejador ter hora pra almoçar, mas tudo
bem); dei um bordo ultra-gigante até a
bóia vermelha perto do enrocamento do porto
e comecei a descer pra VV de popa e fui fechando
o través aos poucos até passar por
um monte de lixos boiando sem entender nada; logo
depois quase fui catapultado quando passei sem
entender nada por uma bandeira do Brasil amarrada
num mastrinho vermelho e fui descobrir logo depois
de onde vinha tudo isso: era a triste cena de
um barco de pesca afundando, todo destruído,
tentando ser resgatado pela Capitania. Felizmente
ninguém morreu, pois todo pescador que
se preza não sabe nadar.
Acenei pra galera do naufrágio e continuei
seguindo pra VV arribando. Quando fui chegando
perto, faltando uns 2 km pra chegar na praia da
regata, o vento começou a rondar por oeste
e fui orçando cada vez mais pra conseguir
manter a linha da praia, mas foi tão rápida
a rondada que cheguei rir sozinho e o mais engraçado
é que o vento rondou sem diminuir muito,
caçei a esteira toda e continuei planando
no contravento até a prancha apontar pra
Ilha do Sapo... aí fiquei puto com o vento,
dei um gybe pra trocar de bordo e descer no contravento
do outro lado, sabendo que teria ainda que cambar
mais duas vezes, mas foi dar o gybe e, do nada,
o mar ficou branco lá no meio e o toco
entrou de vez (no bom sentido) e, pra encurtar
a história, tive que abandonar o equipo
à deriva, após perder meu boné
australiano de estimação, depois
de inúmeras tentativas frustradas de manter
a vela panejando pra voltar sabe-se lá
até aonde e após também muito
relutar com os caras da Capitania que praticamente
me obrigaram a embarcar e abandonar meus bens
materiais - tive que ouvir isso ainda - pois o
que importa é a vida humana, etc... eles
falam isso porque não sabem o preço!
Ah, depois o tenente ainda ficou dando uma de
sermão, que eu estava muito longe da costa
sem colete, etc. Tudo bem, eu tava errado mesmo
e de carona com ele ainda.
Antes de pedir ajuda pensei quais seriam minhas
alternativas:
1 - chegar na praia velejando, ganhar a regata,
comer muito churrasco, subir no pódio e
depois voltar pro Iate velejando incrivelmente
de popa: seria divertido, mas infelizmente não
deu;
2 - sentar e esperar o vento diminuir: essa sem
dúvida era a alternativa mais sensata,
mas pela Lei daquele cara do azar, eu poderia
ser atropelado por um navio até que o resgate
chegasse, (caso chegasse) pois nas proximidades
tinham simplesmente 2 canais de tráfego
de navios e, se fosse o caso, mesmo que me vissem
não teriam como parar a tempo, portanto
descartei essa depois de perceber que já
tinha uns 40 minutos que eu estava relutando ali
e o vento só aumentava; cheguei a tentar
engatar o trapézio só a título
de curiosidade, mas não consegui, pois
a vela caía antes pra barlavento ao memso
tempo em que o bico da prancha decolava; foi o
vento mais forte que já peguei desde que
passei a velejar de FW;
3 - desmontar tudo e remar: não dá
pra remar com o rig 9.8 em baixo de mim, fora
que a prancha tem 1 metro de largura e os braços
não chegam bem na borda pra remar com eficiência,
portanto descartei essa logo de cara;
4 - abandonar o rig e remar um pouco melhor: esquece,
nem passou pela cabeça;
5 - acenar pra lancha da Capitania que resgatava
o barco de pesca semi-submerso antes que a corrente
me levasse pra lá de qualquer jeito, assim
depois iria parecer que eu não queria a
ajuda deles e a situação ia ficar
chata: foi a escolhida.
Só optei pela alternativa 5, pois a idéia
inicial era que a lancha da Capitania dos Portos
passasse um rádio pro clube e pedisse ajuda
enquanto eu esperava boiando e me divertindo ali
com a situação e os peixes, aliás
no momento me lembrei do dia em que nós
vimos um belo tubarão (do grande mesmo)
na altura do 3º píer de Camburi, mas
isso já era demais, ele já devia
estar longe; bom, volando à lancha da Capitania,
bastava eles fazerem isso, darem minhas coordenadas
(lat, long) e Morcegão viria de bote inflável
me pegar, pois seria mais seguro pra não
tecar a prancha e aí talvez até
desmontasse tudo ou quem sabe, até ele
chegar, o vento teria diminuído e eu voltaria
velejando...
Mas não foi exatamente como planejado:
os loucos mandaram que eu embarcasse, pois eles
tinham que prosseguir o resgate (que eu estava
atrasando)do barco de pesca, largasse o equipo
à deriva enquanto tentavam conseguir o
barco do clube; uma vez dentro do barco, ladeado
por 7 ex-pescadores arrasados, um tenente todo
burocrático e uns 4 cabos da marinha bem
mandados, ainda assim eu, que tremia de frio,
achava que isso ia ser rápido e fiquei
mais ou menos tranquilo, vendo aquela pilha de
dolar se afastar rumo à bóia verde
lá fora... e a prancha é só
metade minha, como eu iria explicar isso pra Thales
caso ela, digamos, extraviasse?
Por um momento até me senti meio fútil
por estar preocupado com minha prancha, enquanto
os caras estavam perdendo seu instrumento de trabalho,
mas fazer o que? Eu tinha que me preocupar também.
Bem, voltamos à tentativa de amarrar o
barco de pesca, já só com a casaria
pra fora (coitados) e seguimos à velocidade
de 1,2 knots/h - sabe o que é isso? É
mais lento que um cágado - senão
o que restou do barco ia desintegrar de vez, o
casco de 9 metros estava abrindo no meio, na proa
e tudo que tinha dentro saiu boiando; o processo
todo levou umas boas horas até chegarmos
à sede da Capitania dos Portos, ali, logo
depois da Cruz do Papa.
E tudo isso ouvindo o tempo todo a confusa conversa
de rádio entre a lancha do ICES, a sala
de rádio do clube, o nosso barco e um rebocador
que voltava dos navios, até que, pra meu
desespero, depois que a lancha que saiu do clube
pra me pegar na lancha da Capitania e então
irmos procurar o material juntos descobriu que
o tenete resolveu não parar até
chegar em terra, ou seja, a lancha ficou um tempão
navegando à 1,2 knots/h atrás de
nós e não pôde me pegar, seguindo
então pra marca original de onde eu estava
quando pedi ajuda; de lá ela teria que
ir seguindo a corrente até achar, mas o
que aconteceu? Um rebocador disse que havia recolhido
à bordo o equipamento aparentemente intacto
antes deles... imaginem então o bom humor
que o pessoal da lancha ficou, eles estavam sentados
tranquilamente na varanda do restaurante do clube
quando alguém informou que havia um resgate
a fazer e o bote do clube já tinha tentado
chegar lá e desistiu com medo de capotar;
nisso eles foram cumprir seu dever e depois de
muita enrolação da Capitania, chegaram
tarde demais pro resgate do equipo, ou seja, não
fizeram nada!
Foi complicado ouvir " equipamento aparentemente
intacto", isso depois de passar horas sacudindo
dentro do barco imginando como o pessoal iria
embarcar meu equipo (montado) dentro de uma lancha
de pesca oceânica sem destruí-lo.
Foi isso, fui de carona na lancha rebocando o
barco de pesca, junto com 7 pescadores arrasados,
ouvindo toda hora o cara no rádio falando
com a lancha do resgate do meu "body board"
perdido.
E só por curiosidade, meu equipo foi resgatado
à uma milha do Porto de Tuba por um rebocador
de nome Funchal (esse detalhe não teve
a menor importância, mas gravei o nome assim
mesmo) e por um milagre chegou apenas um pouco
sujo, mas intacto, com apenas dois tequinhos no
deck... acho que vou passar a levar um celular
quando for pra longe sozinho, se bem que pela
Lei a bateria ia ter acabado.
Chegando em terra, ainda tive que ficar esperando
(desesperado) o rebocador chegar no atracadouro
com meu equipo "aparentemente intacto".
Por sorte o pessoal do rebocador foi nota 10 e
o atracadouro deles era a poucos minutos da Capitania;
fui literalmente correndo até lá
pra ver se estava tudo inteiro mesmo, enquanto
aguardava minha irmã chegar de carro pra
buscar tudo e levar de volta pro Iate.
Ah, quase me esqueci de um detalhe, quando entrei
correndo no lugar onde estava o rebocador (uma
empresa de abastecimento de navios), depois de
ter pago um x-large-mico correndo no caminho pela
vila de pescadores de trapézio e camisa
de lycra de manga comprida, só pra completar,
fui obviamente atacado por um vira-lata pardo
que mordeu meu calção!! Que cena...
Por fim, cheguei no Iate no fim da tarde e o que
todos me perguntaram? "O vento acabou?"
Sem querer comentar nada, só disse que
ia mandar um e-mail - esse - pra galera, pra não
ter que ficar repetindo essa história enorme
toda hora.
Quando cheguei em casa de noite, após ter
lavado bem a prancha, pois os caras tinham boa
vontade mas estavam com as luvas sujas, percebi
que o cronômetro estava ligado ainda e nem
isso consegui fazer, marcar o tempo; fora a fome,
pois tomei uma vitamina às 8:15h e uma
água de côco antes de ir pra regata
e sem falar no bronze que peguei (não bronze
de medalha, mas de insolação mesmo).
Neste meio tempo, choveu granizo em Guarapari
e ventou 100km/h.
Mas eu sou insistente, ainda vou conseguir correr
uma regata de vcs aí!!!!!
Abraço,
Rominho.
BRA110
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